Como a psicanálise explica a fuga da realidade e o descontrole emocional no day trade

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A busca por consistência no day trade costuma ser discutida em termos de técnica, setup e gerenciamento financeiro. No entanto, o que poucos admitem é que a maior parte dos erros nasce antes mesmo do clique — na mente do próprio trader.

No episódio 5 da 4ª temporada do programa Mapa Mental, no canal GainCast, Marcielli Mota, psicanalista e trader, detalhou como o princípio do prazer, a homeostase psíquica e o luto pós o loss moldam o comportamento do trader, frequentemente o afastando da realidade do mercado.

Segundo a psicanalista, compreender esses mecanismos é condição essencial para construir maturidade operacional.

Quando o prazer guia o trade

Para Marci, o ponto de partida é reconhecer que o ser humano transita entre dois polos: o princípio do prazer, que busca conforto imediato, e o princípio da realidade, que exige sacrifícios em troca de resultados futuros.

“Se a gente for entrar na psicanálise, basicamente a gente sempre vai fugir da realidade. Porque o princípio do prazer e o princípio da realidade, ele se opõe completamente”, afirma.

Na prática, no day trade, quando o operador foca apenas no prazer de ganhar dinheiro, ele inevitavelmente se desequilibra. Além disso, assim que o preço corrige e o mercado frustra sua expectativa, ele entra em estado de fuga.

Nesse momento, evita olhar para o gráfico e paralisa. Fica incapaz de tomar decisões racionais. “A gente foge da dor, a gente foge daquilo que é desprazeroso. Isso é do ser humano”, afirma.

Essa incapacidade de lidar com o desconforto imediato faz com que o trader ignore stops e mantenha posições perdedoras.

Consequentemente, ele passa a buscar justificativas para não agir. Em outras palavras, não reage ao mercado. Reage às próprias defesas mentais. “Esse ‘não quero nem ver’ é a fuga da realidade”, observa.

Leia também: Disciplina, responsabilidade e a queda do determinismo no trading

Homeostase psíquica e o efeito cascata do loss

Marci explica que toda mente busca um ponto de equilíbrio — a chamada homeostase psíquica. No day trade, esse equilíbrio não deveria estar no ganho financeiro, mas na qualidade da execução e no respeito ao próprio método operacional.

“Qual é a zona do trader, de equilíbrio do trader? É performar bem.”, afirma.

Entretanto, quando o trader perde dinheiro e não compreende esse princípio, ocorre uma ruptura imediata desse equilíbrio. A partir daí, ele entra em comportamentos compulsivos para tentar restaurar o conforto perdido: aumenta a mão, faz preço médio ou clica repetidamente na tentativa de recuperar o prejuízo.

“Loss. Perdeu o dinheiro, começa os movimentos compulsivos. Clicar, clicar, clicar, clicar, overtrading”, alerta.

Além disso, a psicanalista compara esse processo ao funcionamento básico de sobrevivência: quando o bebê perde o objeto de prazer — no caso, a mãe — ele chora, grita, esperneia.

Para o trader, os equivalentes são a impulsividade, o overtrading e a negação do prejuízo. “Quando leva um loss e o objeto do prazer dele é o dinheiro, ele vai passar por esse luto”, explica.

O luto do trader e a autodepreciação

Após ignorar stops e insistir em operações inviáveis, o operador entra no que Marci chama de luto do trader: um estado emocional caracterizado por negação, frustração e autodepreciação. É o momento em que o operador se esconde, evita falar sobre o pregão, sente vergonha e começa a acreditar que não serve para o mercado.

“Vem a autodepreciação. Eu sou um bosta, eu não presto para isso, eu não deveria nem ter clicado hoje. Eu não valho para nada.”, explica.

Mais do que um simples impulso momentâneo, ela destaca que esse comportamento não surge do nada: é ativado por memórias episódicas antigas, muitas vezes formadas na infância, quando a mente aprendeu a se proteger por meio da retração.

Dessa forma, essas respostas tornam-se automáticas e tendem a se repetir sempre que o trader se sente emocionalmente ameaçado.

“Boa ou ruim, aquela vez deu certo. Então, automaticamente nossa mente vai procurar esse caminho porque fez caminhos no nosso cérebro e que a gente tem naturalmente, gente, preguiça de procurar outro caminho.”, explica.

Leia também: O propósito que sustenta o trader: lições de Thalles Contão para evitar o colapso

Por que compreender não é o mesmo que experimentar

Para Marci, muitos traders “experimentam” técnicas, setups e metodologias, mas não compreendem de fato o que estão fazendo — e essa falta de compreensão alimenta a ansiedade e o medo de clicar.

Sem um sistema definido, qualquer movimento do preço se torna uma ameaça, e a mente volta a comportamentos infantis, guiados por impulsos e lacunas emocionais. “Experimentar não tem a ver com compreender”, conclui.

Segundo ela, somente quando o operador entende suas próprias respostas emocionais — e o ponto exato em que foge da realidade — é que consegue estabelecer um método estável.

Nesse contexto, a psicanálise não substitui o operacional técnico do day trade, mas fornece a base emocional necessária para que o trader rompa padrões autossabotadores e construa consistência de forma sustentável.

“Aconteceu isso. Eu já sei o que que vai acontecer quando tem esse movimento de coisas extraordinárias para acontecer, mas agora eu tenho ferramentas para isso não me paralisar”, conclui.

Confira mais conteúdos sobre análise técnica no IM Trader. Diariamente, o InfoMoney publica o que esperar dos minicontratos de dólar e índice

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No episódio 5 da 4ª temporada do programa Mapa Mental, no canal GainCast, Marcielli Mota, psicanalista e trader, detalhou como o princípio do prazer, a homeostase psíquica e o luto pós o loss moldam o comportamento do trader, frequentemente o afastando da realidade do mercado.

Segundo a psicanalista, compreender esses mecanismos é condição essencial para construir maturidade operacional.

Quando o prazer guia o trade

Para Marci, o ponto de partida é reconhecer que o ser humano transita entre dois polos: o princípio do prazer, que busca conforto imediato, e o princípio da realidade, que exige sacrifícios em troca de resultados futuros.

“Se a gente for entrar na psicanálise, basicamente a gente sempre vai fugir da realidade. Porque o princípio do prazer e o princípio da realidade, ele se opõe completamente”, afirma.

Na prática, no day trade, quando o operador foca apenas no prazer de ganhar dinheiro, ele inevitavelmente se desequilibra. Além disso, assim que o preço corrige e o mercado frustra sua expectativa, ele entra em estado de fuga.

Nesse momento, evita olhar para o gráfico e paralisa. Fica incapaz de tomar decisões racionais. “A gente foge da dor, a gente foge daquilo que é desprazeroso. Isso é do ser humano”, afirma.

Essa incapacidade de lidar com o desconforto imediato faz com que o trader ignore stops e mantenha posições perdedoras.

Consequentemente, ele passa a buscar justificativas para não agir. Em outras palavras, não reage ao mercado. Reage às próprias defesas mentais. “Esse ‘não quero nem ver’ é a fuga da realidade”, observa.

Leia também: Disciplina, responsabilidade e a queda do determinismo no trading

Homeostase psíquica e o efeito cascata do loss

Marci explica que toda mente busca um ponto de equilíbrio — a chamada homeostase psíquica. No day trade, esse equilíbrio não deveria estar no ganho financeiro, mas na qualidade da execução e no respeito ao próprio método operacional.

“Qual é a zona do trader, de equilíbrio do trader? É performar bem.”, afirma.

Entretanto, quando o trader perde dinheiro e não compreende esse princípio, ocorre uma ruptura imediata desse equilíbrio. A partir daí, ele entra em comportamentos compulsivos para tentar restaurar o conforto perdido: aumenta a mão, faz preço médio ou clica repetidamente na tentativa de recuperar o prejuízo.

“Loss. Perdeu o dinheiro, começa os movimentos compulsivos. Clicar, clicar, clicar, clicar, overtrading”, alerta.

Além disso, a psicanalista compara esse processo ao funcionamento básico de sobrevivência: quando o bebê perde o objeto de prazer — no caso, a mãe — ele chora, grita, esperneia.

Para o trader, os equivalentes são a impulsividade, o overtrading e a negação do prejuízo. “Quando leva um loss e o objeto do prazer dele é o dinheiro, ele vai passar por esse luto”, explica.

O luto do trader e a autodepreciação

Após ignorar stops e insistir em operações inviáveis, o operador entra no que Marci chama de luto do trader: um estado emocional caracterizado por negação, frustração e autodepreciação. É o momento em que o operador se esconde, evita falar sobre o pregão, sente vergonha e começa a acreditar que não serve para o mercado.

“Vem a autodepreciação. Eu sou um bosta, eu não presto para isso, eu não deveria nem ter clicado hoje. Eu não valho para nada.”, explica.

Mais do que um simples impulso momentâneo, ela destaca que esse comportamento não surge do nada: é ativado por memórias episódicas antigas, muitas vezes formadas na infância, quando a mente aprendeu a se proteger por meio da retração.

Dessa forma, essas respostas tornam-se automáticas e tendem a se repetir sempre que o trader se sente emocionalmente ameaçado.

“Boa ou ruim, aquela vez deu certo. Então, automaticamente nossa mente vai procurar esse caminho porque fez caminhos no nosso cérebro e que a gente tem naturalmente, gente, preguiça de procurar outro caminho.”, explica.

Leia também: O propósito que sustenta o trader: lições de Thalles Contão para evitar o colapso

Por que compreender não é o mesmo que experimentar

Para Marci, muitos traders “experimentam” técnicas, setups e metodologias, mas não compreendem de fato o que estão fazendo — e essa falta de compreensão alimenta a ansiedade e o medo de clicar.

Sem um sistema definido, qualquer movimento do preço se torna uma ameaça, e a mente volta a comportamentos infantis, guiados por impulsos e lacunas emocionais. “Experimentar não tem a ver com compreender”, conclui.

Segundo ela, somente quando o operador entende suas próprias respostas emocionais — e o ponto exato em que foge da realidade — é que consegue estabelecer um método estável.

Nesse contexto, a psicanálise não substitui o operacional técnico do day trade, mas fornece a base emocional necessária para que o trader rompa padrões autossabotadores e construa consistência de forma sustentável.

“Aconteceu isso. Eu já sei o que que vai acontecer quando tem esse movimento de coisas extraordinárias para acontecer, mas agora eu tenho ferramentas para isso não me paralisar”, conclui.

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